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João e Maria

        João e Maria há muito que se conhecem e, desde em quando pequenos, já demonstravam aquele amor casto infantil. Passaram a infância trocando cartas e chutes; a pré-adolescência de mãos dadas e segredinhos; a adolescência se amassando tentando quebrar a lei física de que “dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço”; e por fim a fase a atual, a juventude, fazendo amor todo dia de todas as maneiras e em qualquer lugar que lhe derem na telha. Era óbvio que isso terminaria dessa maneira, pois praticamente são duma natureza praticamente inseparável. Ele é um mancebo guapo, alto, olhos azuis e cabelos de anjo, pele branca, aquele tipo de homem fatal, de pensamento curto e limitante, com certa tendência a pular cerca e ir comer no pasto do vizinho. Ela é uma rapariga viva, mediana, olhos oblíquos verde-esmeralda, que quando se fixavam em algum lugar, tragavam tudo para dentro de si; cabelos pretos e lisos, pele morena, daquela cor típica das espanholas de Andaluzia, aquele tipo de esperta mulher que consegue levar um homem à loucura, extremamente fogosa com tudo e com todos. Falavam, é verdade, que um era feito para o outro, pois desde pequenos juntos iriam morrer juntos também, “até parecia a vontade Deus isso, ou aquelas histórias de romance água com açúcar”.

          Entretanto, o tempo e a rotina corroem as relações humanas, fazendo aquela chama de antes queimar até se exaurir. O primeiro faz isso por que escraviza e domina as pessoas, e o segundo elemento faz daquilo uma coisa banal, perde a graça e aquele gosto de sempre ter algo novo. E se tratando duma reação química fulminante para se estragar o namoro desses dois que resiste há quase dez anos, eles se uniram e envenenaram aquele relacionamento doce e mágico, fazendo da existência deles um inferno todo santo o dia, além das conseqüências que trouxeram: João começou a sair com outras mulheres, e Maria pôs um detetive atrás dele. Praticamente uma vida de cão e gato.

          E foi indo assim, de dia para dia, brigando, dando um tempo e depois voltando, até que aconteceu algo de surpreendente. Certa vez combinaram de se encontrarem, na saída da cidade, para conversarem longe de todo mundo, sem os olhos de ninguém em cima deles, ou ouvidos colados à parede. Enquanto isso, nenhum mais olhou na cara do outro, julgando que a parte oposta iria se render antes.

          Mas ninguém fez isso. O dia chegou, e o local era uma estrada que ia para as chácaras da cidade. Acresce que chovia muito, o tempo estava fechado, dum preto de espessura de tinta, sendo que eram quatro da tarde. Estavam embaixo duma árvore, ao lado dum barranco, bem longe também dos últimos vestígios da população. Ela estava bem maquiada, bem vestida, duma maneira bem esdrúxula para a ocasião. Ele estava mais normal, mais roupa caseira e descompromissada.

          Acredite o leitor se quiser, eles falaram e quase se pegaram no tapa. Discutiram muito, durante uma hora, fazendo amor logo em seguida duma maneira selvagem que chegou até a atolar o carro na areia e embaçar os vidros, como das primeiras vezes em suas vidas. E entanto, voltaram a discutir de novo, com Maria jogando na cara dele as provas do crime.

          Ela abriu a bolsa vermelha da mesma cor do seu vestido, e disse:

          – Olha isso. Vamos ver se você consegue negar alguma coisa agora.

          Eram as fotos das vezes que João ia ter com a filha do padeiro, com a melhor amiga dela e ainda com uma professora coroa da faculdade dele. Estava sem argumentos para arrebatar tal coisa, e nem tinha também. Disse por fim:

          – Sim é verdade… Sai com elas, mas estou aqui com você não?

          Ela sorriu duma maneira de desprezo.

          – Está…

          – Então… Aquilo foi passageiro, e você ficou!

          Maria não perdia aquele ar de asco dele. Ficava em silêncio, tragando-o para dentro de sim com aqueles olhos verdes espertos de macaca luxuriosa. Até que perdeu aquela fisionomia, e adquiriu outra, de fêmea sedenta. Bom, por fim ela atacou o namorado, fazendo amor mais uma vez, com ambos caindo prostrados sem forças em cada lado, a respiração ofegante feito dois cães.

          Todavia ela agora já arrumada e recomposta de novo, estava de um jeito meio sinistro, como que se tivesse tramando algo contra o pobre rapaz. Uma estranha penumbra cobria os seus olhos, mas ele nem percebia, estava exausto devido ao segundo tempo. João comenta que merecia morrer por causa do que fizera e Maria responde que sim, tirando uma pistola com silenciador da bolsa, encostado-a ao lado do ouvido dele.

          – Pára com isso, está louca?

          Ela sorria com ódio. Engatilhou a arma.

          – Pára vai… – dizia ele com o medo tomando conta do seu corpo, sem força para se mexer ou se defender.

          Até que ela solta uma risada sinistra e espera um trovão iluminar seu rosto, totalmente tomado pela sede de vingança de uma fêmea que fora traída e não dera o troco. João fica com medo e fecha os olhos. Maria atira, e a bala vara a cabeça dele, espirrando sangue e massa encefálica por todo lugar. Ela então mete mais dez tiros na cabeça dele, fazendo do carro uma banheira de sangue. Grita feito uma possessa, por ter vingado sua honra. Por fim ainda dá um beijo na boca dele e sai do carro.

          Lá fora na chuva, pega uma pedra para quebrar o vidro do carro onde a bala furou. Deita o corpo do outro lado e liga o carro. Sai caminhando como se nada tivesse acontecido. Quando estava em uma distância boa, ela vira e mete bala na direção onde fica o combustível. O carro explode e ela sai com um ar angelical de mulher honesta e sem pecado algum.

          Nas ruas da cidade, quem a visse, dir-se-ia o ser mais feliz de todos, de atos irrepreensíveis e corretos.

 

Zé Ninguém,

30 de Dezembro de 2008.

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