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O tiro saiu pela culatra

Criança é arrastada na rua por bandidos que roubaram carro”; “Rombo na Previdência Social pode ser maior”; “Balança comercial fica negativa”; “Homem mata sua mulher queimando-a viva”; “Traficantes matam oito policias”; “Desvio de dinheiro pode chegar a R$ 180 milhões”; “Casa é destruída por bandidos usando lança-foguete”; “Mulher mata o marido degolado durante a noite”; “Animais raros são encontrados num porão duma casa”; “Padre se abusava de crianças”; “Deputado é solto e livre das acusações de lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e homicídios”; “Pit Boys matam mendigo a chutes e socos e são soltos”… 

          Fecho o jornal por que sinto vontade de vomitar. Quanta notícia boa que eu vejo! Abro-o todo dia e suas folhas iluminam a minha vida. Quanto progresso! Quanta paz! Quanta honestidade! Quanta sabedoria, Deus santo! Mas que! É muito lindo de ver a humanidade se destruindo sozinha, sem nenhuma força do Juízo Final agindo sobre essas malditas pessoas. Menos mal, por que eu já fiz minha parte aqui, posso fechar os olhos e descansar em paz, não tenho uma só ação a qual me arrepender. Fodam-se eles: aqui se faz aqui se paga! Contudo, o mundo lá está repleto de porcarias, vagabundos, bandidos, e os bons é quem têm de ficar em casa presos. Não sei mais o que pensar disso tudo. Freud bem que dizia do mal-estar da civilização… Sou levado a crer que desrespeitando as regras as pessoas se sentem melhores e liberam esse instinto animal dentro de si, aliviando a luta da mente contra o corpo. O Homem mesmo que se destrói…

          Meu nome é Rebelo, sou descendente de espanhóis legítimos, aposentando, e tenho cinqüenta anos. Em jovem fui funcionário público, emprego bom que eu consegui graças a uma “cunha” que meu pai tinha lá dentro, senão era pra eu ter ido trabalhar na roça como meu amigo Damião, homem bom que perdeu a vida nas mesas do jogo e para o fumo e para a bebida. Tenho uma casa boa, fruto do meu trabalho, e um carro, resultado de uma boa aposentadoria. Tudo isso eu ganhei com o suor do meu rosto, posso bater no peito e me vangloriar que venci na vida, e hoje acho ser de meu direito poder esticar os pés e descansar, sozinho, por que sou viúvo.

          Ultimamente estou de saco cheio com essa porra de realidade. Não agüento mais ver bandido solto, político roubando, gente sendo manipulada, escândalos e mais escândalos! Não suporto mais! Isso começou judiar da minha cabeça duma maneira quase que neurótica. Quero muito pegar a minha M 3 e enfiar chumbo em uns cabras que estão assaltando as casas aqui do bairro sabe; uma quadrilha, suspeito eu, de três, e acredito piamente que a próxima casa é a minha, pois eles estão agindo em triângulo, devido ao fato que foram assim os roubos: duas casas da rua da frente, e uma da minha. Acho que será essa noite a festa…

          Chamo Damião para vir em casa ter um dedo de palestra. Na verdade ele é a peça de um quebra-cabeça meu em desenvolvimento, pois pretendo usá-lo como isca para os bandidos. Não, ele não irá correr risco.

          A campainha toca, e vou atender. Era ele mesmo, no seu traje de velho acabado. Vinha com o cigarro de palha no canto da boca, tossindo feito uma vaca.

          – Buenas, Damião!

          – Boas amigu!

          – Queira entrar, por favor…

          – Qui bom qui ocê mi chamo, tava ficanu quebreiro em ficá lá na mesa di casa sem fazê nada…

          – Eu cá também queria trocar algumas idéias com você…

          – Sou todo seu…

          Conversamos a tarde inteira sobre tudo. Discutimos fatos, relembramos momentos, e comentamos sobre os assaltos aqui no bairro. Por fim acabei de contar a ele o que eu tinha em mente: ele iria sair com uma roupa minha, logo a noitinha, sem fumar, e vai direto para casa, assim fico eu sozinho aqui para pegar os bandidos que irão achar que estará vazia. Damião gostou da idéia, pois parecia de filme de “Róliudi”, como ele dizia.

          Na hora combinada, ele se vestiu com uma roupa minha. Ficou idêntico de costas. Ele partiu e eu fui pegar a M 3 em cima da estante de livros na sala. Apaguei todas as luzes, e fiquei sentando na poltrona, aguardando pacientemente a ação dos salafrários. O tic-tac do relógio estava me deixando louco até o momento de alguns ruídos, na verdade, baques no chão, como de alguém pulando o muro. Vi que entrariam pela porta da sala, então fui até o meu quarto vagarosamente, sem fazer um ruído. Quando eles estavam mexendo na estante dos livros, voltei, acendi a luz e desengatilhei a arma. Quixi Quixi.

          – Buenas, companheiros! Que fazem aqui? – disse eu com um sorriso matreiro no rosto.

          – Nós? – disse um rapaz branco que ficou mais branco ainda por ver a 12 apontada para a cabeça dele.

          – Sim, vocês…

          – Não matá a gente não! – disse um rapaz negro e outro mulato a coro de choro. Eram pivetes, mas bem espertos.

          – Matar vocês? Quantos anos têm?

          – 17, 16, 17.

          – Hum… Foram vocês então os autores de todos esses roubos aqui na vizinhança?

          – Sim…

          Eu com minha ironia:

          – Não sabia que criança também era bandida… Veja bem se é justo: vocês entram na minha casa para roubar bens para trocar com droga, alimentando o tráfico, e conseqüentemente a violência. Eu trabalhei toda a minha vida para consegui-los. O que pensam disso?

          – É o único jeito para sobreviver… – disseram com escárnio de mim.

          – É o caramba! O Governo lota vocês com programas sociais e bolsa isso bolsa aquilo, escola para aprender a ler pelo menos, por que o ensino não é lá essas coisas… E vocês falam que é o único jeito de sobreviver?

          – Sim… Se quisermos ser ricos, o tráfico é a única saída…

          – Ser ricos? Muito bom… Já pensaram em ser ricos sem precisar roubar… – quando eu estava dizendo isso, vi que queriam sacar uma pistola que levavam com eles. Não tive escolha… – Vou ter de matá-los, por que a lei desse país protege muito os menores, e quando fizerem 18, o processo se extingue e vocês são livres das acusações. Adeus! O tiro de vocês saiu pela culatra dessa vez.

          Meti chumbo neles. Sangue espirrou por toda a sala, com pedaços deles por tudo.  Senti uma ponta de dó deles, talvez fosse a única saída mesmo… Cai fora de casa, fechando o portão com a 12 na mão mesmo. Fui para casa de Damião contar o que aconteceu. Precisava deixar a arma lá. Voltaria mais tarde e ligaria para polícia. Se por um lado fiz justiça com minhas mãos, por outro, tenho um ato feito o qual me arrepender… Talvez o “olho por olho e dente por dente” não é tão bom quanto parece ser.

 

El Phodaum,

12 de Janeiro de 2009.

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