A história não contada de Kings and Queens: a cena do cavalo que quase terminou em desastre

O asfalto estava úmido, as luzes de Los Angeles brilhavam mais do que o normal e um exército sobre duas rodas estava prestes a tomar conta das ruas da cidade.

Muitas bandas de rock gravam videoclipes em estúdios milionários, cercados de telas verdes, dublês de ação e infinitas camadas de efeitos digitais.

Mas quando o Thirty Seconds to Mars decidiu lançar a música Kings and Queens, os integrantes escolheram a rota oposta. O caminho mais difícil, cansativo e visualmente inesquecível.

Não estamos falando de um mero vídeo genérico montado às pressas para rodar na grade de programação da TV a cabo. Estamos falando de um movimento que paralisou vias públicas e desafiou as regras.

Uma ideia insana que recrutou centenas de ciclistas urbanos e gerou frames que viraram um símbolo absoluto de resistência e juventude na virada para a década de 2010.

Acha que já sabe tudo sobre os bastidores caóticos da indústria musical? Prepare-se para descobrir como a Costa Oeste americana foi dominada em uma única madrugada de filmagens.

A história não contada de Kings and Queens: a cena do cavalo que quase terminou em desastre

O cenário de guerra antes da gravação

Para entender o peso dessa obra audiovisual, precisamos voltar os olhos para a situação da banda no final de 2009. Os músicos estavam saindo de um período de exaustão mental e conflito extremo com a sua gravadora.

O álbum This Is War estava sendo forjado no meio de um processo judicial avassalador, no qual os integrantes foram processados em absurdos 30 milhões de dólares pela EMI/Virgin Records.

A tensão diária, as noites sem dormir e o medo de perderem a própria carreira moldaram de forma definitiva a sonoridade mais crua e a agressividade daquele momento da banda.

Eles precisavam de um primeiro single que não apenas tocasse nas rádios, mas que passasse uma forte mensagem de sobrevivência. Algo que tirasse as pessoas de casa e as conectasse nas calçadas.

A rebelião noturna de Kings and Queens

Jared Leto assumiu a cadeira de diretor do projeto usando o seu bizarro e famoso pseudônimo: Bartholomew Cubbins, uma homenagem declarada aos contos literários de Dr. Seuss.

Ele não tinha a menor intenção de filmar os músicos dublando a canção de forma artificial em um galpão vazio. Ele queria capturar a pulsação de um evento real de proporções cinematográficas.

A verdadeira inspiração surgiu quando amigos próximos apresentaram a ele o conceito dos movimentos Critical Mass e Crank Mob, que ganhavam força nas ruas americanas.

Eram grupos formados por ciclistas apaixonados que se encontravam de forma espontânea na calada da noite para “recuperar” e ocupar os grandes espaços públicos das metrópoles.

A filosofia do grupo era simples e direta: a cidade também pertence às pessoas e às bicicletas, não apenas aos carros importados, ao engarrafamento caótico e à poluição sonora.

O diretor mergulhou nessa cultura de rua vibrante e a transformou no fio condutor perfeito para embalar a jornada que a música pedia.

Los Angeles como você nunca prestou atenção

As gravações varreram as madrugadas num tenso fim de semana de outubro de 2009. A produção precisou desenhar uma logística absurda para bloquear quarteirões essenciais do centro de Los Angeles.

Imagine a complexidade e a dor de cabeça de interromper o fluxo de uma das metrópoles mais movimentadas do planeta, desenhando uma rota livre até o icônico Píer de Santa Monica.

A estética do clipe flerta o tempo todo com o surrealismo esbarrando na crueza da paisagem urbana. Artistas independentes, engolidores de fogo e figuras fantasmagóricas escoltaram os ciclistas na escuridão.

O guarda-roupa dos figurantes entregou referências de ouro aos cinéfilos, apresentando pessoas fantasiadas como a gangue Baseball Furies, do clássico cult dos anos 70 The Warriors.

Em outro milésimo de segundo genial, o enquadramento recria de forma tátil a obra Flower Chucker, o lendário protesto visual criado pelo misterioso grafiteiro Banksy.

Enquanto a horda de bicicletas rasgava as avenidas, o vídeo cortava para a banda performando no limite de um penhasco altíssimo no Griffith Park, com a bateria de Shannon Leto ecoando enquanto as luzes da cidade cintilavam lá embaixo.

O desespero da cena do cavalo

Trabalhar em vias públicas no meio da madrugada funciona como um ímã para acidentes. Curiosamente, a maior tensão da produção inteira não envolveu a multidão de ciclistas ou os carros da polícia.

Leto exigiu uma tomada muito específica na edição: um cavalo correndo de forma solitária e dramática por uma larga avenida de concreto, quebrando completamente a lógica daquele cenário moderno.

O grande obstáculo foi a própria lei. As autoridades locais concederam uma autorização extremamente rígida permitindo que a equipe tentasse gravar a cena com o animal apenas três vezes. Nenhuma a mais.

A equipe prendeu a respiração. Na primeira tentativa, o cavalo se assustou e correu para a lateral, escapando totalmente do foco e do enquadramento desenhado pelo diretor.

Na segunda vez, ele desviou novamente e foi parar no lado oposto. O tempo estava acabando rápido e a luz do sol já ameaçava destruir a fotografia noturna planejada.

Na terceira e última chance de sobrevivência do roteiro, a mágica imprevisível do cinema resolveu aparecer. O cavalo fez uma linha reta majestosa pelo asfalto escuro e entregou a cena mais arrepiante daquele ano.

A urgência rítmica da música se choca com a euforia visual exatamente quando os ciclistas chegam às águas frias da praia de Santa Monica. O peso da madrugada finalmente desaparece ao nascer do sol. Veja com seus próprios olhos.


Como a internet abraçou o protesto

O estrondo causado pelo lançamento oficial em novembro daquele ano superou todas as expectativas. O público engoliu o material não como um mero produto pop, mas como um curta-metragem denso sobre liberdade.

As letras de Leto atacavam o comodismo com uma franqueza assustadora. Ao cantar “Nós éramos os reis e rainhas da promessa”, a faixa jogava na cara de uma geração inteira a dor do potencial desperdiçado.

Essa dualidade poética entre o poder juvenil e a vulnerabilidade do fracasso adulto fez com que milhares de fãs se sentissem compreendidos. Fóruns gigantescos do Reddit e comunidades no Tumblr passaram meses teorizando os pequenos frames da obra.

O frame do cavalo galopando livre no concreto se espalhou como vírus, virando imagem de perfil e tatuagem de jovens que buscavam fugir de rotinas massacrantes.

O movimento dos ciclistas noturnos também explodiu logo em seguida. Grupos de adolescentes começaram a organizar seus próprios passeios silenciosos pelas capitais europeias, asiáticas e sul-americanas, tentando recriar aquela adrenalina gélida no rosto.

O clipe pegou uma subcultura rica, que até então operava focada nos becos e garagens, e injetou milhões de dólares de visibilidade nela. O punk rock havia se vestido com roupas novas, sem perder a raiva original.

Foi a consagração absoluta de uma banda que venceu sua briga contra as corporações usando criatividade bruta. A obra inclusive arrematou estatuetas cobiçadas nas premiações da MTV, sedimentando a fase de ouro do Thirty Seconds to Mars.


Esse é o efeito devastador de uma obra de arte que se recusa a ser uma panfletagem barata ou uma desculpa esfarrapada para vender ingressos.

O vídeo documentou o espírito de uma comunidade, paralisou o coração econômico de Los Angeles e deixou o mundo inteiro questionando que tipo de legado nós deixaremos nas calçadas.

E a sua história, como é? Você já sentiu aquela vontade incontrolável de arrancar a bicicleta da garagem no meio do nada para sentir o pulso vazio da sua cidade dormindo?

Deixe um comentário no final desta página e me conte qual minuto dessa jornada frenética por Los Angeles mais mexeu com a sua cabeça.

Redação Tediado é a equipe editorial responsável pelos conteúdos do Tediado, site brasileiro no ar desde 2011, focado em humor, curiosidades, listas criativas e entretenimento digital.

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